Deu coliformes ou E. coli na análise da água do poço: o que fazer

Se a análise da água do poço deu coliformes totais ou E. coli, a água está fora do padrão da Portaria GM/MS nº 888/2021, que exige ausência de E. coli em 100 mL. A primeira atitude é parar de beber a água sem ferver ou tratar e usar outra fonte para beber e cozinhar. Depois, é preciso achar a causa (tampa, laje, fossa, caixa d'água ou falta de cloro), limpar e desinfetar o poço e o reservatório e coletar uma nova amostra. Se o poço fornece água a outras pessoas, a Portaria 888 manda avisar a autoridade de saúde e quem consome a água.
E. coli indica contaminação por fezes. Se um morador, hóspede, aluno ou funcionário adoecer, um resultado positivo sem nenhuma providência vira prova contra quem fornece a água. Para condomínio, empresa, hotel ou escola, a Vigilância Sanitária pode aplicar advertência, multa e interdição do estabelecimento.

Coliformes totais e E. coli: qual a diferença
Coliformes totais são um grupo grande de bactérias. Muitas vivem no solo e na vegetação, sem vir de esgoto. O recado é: a água ficou desprotegida. Na saída do tratamento, esse indicador mostra se a desinfecção funciona; no reservatório e nas torneiras, se a água continua protegida.
E. coli (Escherichia coli) vive no intestino de pessoas e animais de sangue quente. A Portaria 888 a chama de "indicador de contaminação fecal": esgoto, fossa ou fezes de animal estão chegando à água.
Resultado no laudo | O que significa | Gravidade |
Coliformes totais presentes, E. coli ausente | Bactérias do ambiente entraram na água ou o cloro não deu conta | Atenção: corrigir e recoletar |
E. coli presente | Contaminação de origem fecal (esgoto, fossa, animais) | Grave: não beber sem ferver ou tratar |
Os dois ausentes | Dentro do padrão bacteriológico | Manter o controle de rotina |
O que a Portaria 888 exige
O padrão bacteriológico está no Anexo 1 da Portaria 888:
Situação | Parâmetro | Padrão |
Poço da casa de uma família (solução individual) | E. coli | Ausência em 100 mL |
Poço que abastece outras pessoas (solução coletiva), saída do tratamento | Coliformes totais | Ausência em 100 mL |
Solução coletiva, reservatório e torneiras | E. coli | Ausência em 100 mL |
Solução coletiva com menos de 20.000 habitantes, reservatório e torneiras | Coliformes totais | Só uma amostra positiva entre as examinadas no mês |
Em solução coletiva, pelo art. 27, qualquer resultado positivo para coliformes totais, mesmo em teste preliminar, exige ações corretivas e novas amostras em dias imediatamente seguidos, até o resultado sair satisfatório (§ 1º). A recoleta negativa não apaga o positivo original (§ 4º), e positivo na recoleta não é tolerado (§ 5º). Na dúvida, recoleta (§ 7º).
Mesmo sem E. coli, a água de poço fornecida a outras pessoas precisa de desinfetante (art. 31), com no mínimo 0,2 mg/L de cloro residual livre no reservatório, na rede e nas torneiras (art. 32). Quando o próprio poço tem E. coli, a cloração precisa respeitar tempo de contato e concentração de cloro conforme pH e temperatura (art. 31, § 1º). Por isso a Portaria pede uma amostra mensal antes do ponto de cloração (art. 31, § 5º).
O que fazer nas primeiras 24 horas

Pare de beber a água sem ferver ou tratar. Vale também para gelo e alimentos.
Garanta outra água. Água mineral para beber e cozinhar. Carro-pipa, só com autorização da autoridade de saúde (art. 14, XIX).
Cheque o cloro. Meça o cloro residual livre na torneira mais distante. Abaixo de 0,2 mg/L, algo falhou: dosador parado, produto acabado ou dose baixa. Veja como medir o cloro residual livre todo dia.
Olhe o poço e a caixa d'água. Tampa quebrada, laje rachada, água empoçada na boca do poço, caixa sem tampa ou suja.
Agende a recoleta. A coleta deve ser feita por profissional, em frasco esterilizado, e analisada em laboratório que atenda ao art. 20 da Portaria 888 (boas práticas e sistema de qualidade conforme a ISO/IEC 17025).
Se a água atende outras pessoas, comunique. Avise a Secretaria Municipal da Saúde e os usuários (veja a seção abaixo).
Causas mais comuns de coliformes em poço

Poço fundo não é garantia de água limpa. Na maioria dos casos, a contaminação não vem do aquífero: entra por cima ou aparece no caminho até a torneira.
Tampa e laje: sem laje ou com tampa mal vedada, entram enxurrada, insetos e pequenos animais.
Vedação do poço: falha no selo entre o tubo e a parede do furo deixa a água da superfície descer por fora do tubo.
Fossa ou sumidouro perto: a NBR 7229 pede 15 m entre fossa e poço. Veja poço perto de fossa séptica.
Reservatório sujo ou aberto: caixa sem tampa, com lodo no fundo, frestas ou sem limpeza há muito tempo.
Falta de cloro: dosador desligado, produto vencido ou dose que não chega até a última torneira.
O ponto onde a amostra deu positivo ajuda a achar a causa:
Onde deu positivo | Onde procurar |
Água direto do poço, antes do cloro | Tampa, laje, vedação do poço e fossa próxima |
Saída do tratamento | Dosador de cloro e dose aplicada |
Só na torneira ou no reservatório | Caixa d'água, tubulação e cloro que não chega ao fim da rede |
Limpeza e desinfecção do poço e do reservatório
Primeiro corrija a causa. Limpar com a tampa quebrada ou a fossa vazando é jogar o serviço fora: o problema volta.
No poço: retirada de sedimentos, desinfecção com cloro em concentração alta por tempo controlado e bombeamento até eliminar o excesso de cloro. Dose e tempo dependem do volume do poço: é trabalho técnico. Veja métodos de limpeza e desinfecção de poço.
No reservatório: esvaziar, raspar e escovar paredes e fundo, desinfetar, enxaguar e tampar bem. Quem fornece água a outras pessoas precisa manter registro das limpezas de reservatório (art. 14, XVII). Veja limpeza de reservatório e caixa d'água: registro e frequência.
A nova análise: quando e como coletar
A recoleta só faz sentido depois da correção e da desinfecção, com o excesso de cloro da limpeza já eliminado e o cloro de rotina funcionando.
Solução coletiva: novas amostras em dias imediatamente seguidos até o resultado sair satisfatório (art. 27, § 1º). Se houver rede interna, a regra pede recoleta no mesmo ponto e mais duas amostras, uma antes e outra depois dele na rede (art. 27, § 2º).
Casa de uma família: só volte a beber sem ferver depois de um resultado negativo.
Depois do susto: quem fornece água a outras pessoas mantém a rotina do Anexo 15: cloro residual diário e coliformes totais e E. coli mensais.
Para entender o laudo completo, e não só a parte bacteriológica, veja água de poço é potável? o que verificar antes de beber.
Quem fornece água a outras pessoas tem o dever de comunicar
Condomínio, empresa, hotel, escola ou sistema comunitário com poço e sem rede pública é solução alternativa coletiva. Para esse responsável, a Portaria 888 manda:
Comunicar imediatamente a autoridade de saúde pública municipal e informar a população abastecida, em linguagem clara e acessível, a situação de risco à saúde e as medidas adotadas (art. 14, XXII).
Informar as medidas corretivas à autoridade de saúde sempre que o padrão bacteriológico do Anexo 1 for violado (art. 27, § 6º).
Montar um plano de ação em conjunto com a autoridade de saúde quando houver situação de risco, incluindo a comunicação à população (art. 48).
Na prática: aviso no mural, no grupo de moradores ou na recepção, dizendo que a água não deve ser bebida sem ferver, o que está sendo feito e quando sai a nova análise. Guarde cópia do aviso, do protocolo, dos laudos e da limpeza. Veja o que mais a Vigilância cobra em água de poço para consumo coletivo: o que a Vigilância Sanitária exige.
O que acontece se você não agir depois de um resultado positivo
1. Pessoas doentes e a responsabilidade de quem fornece
Água com E. coli pode causar diarreia e vômito, com risco maior para crianças, idosos e pessoas com a imunidade baixa. Se alguém adoecer e o laudo positivo não tiver providência registrada, não há defesa. A Portaria 888 (art. 46) aplica a Lei 6.437/1977 e o Código de Defesa do Consumidor, sem prejuízo das sanções civis e penais.
2. Vigilância Sanitária: multa e interdição
Descumprir norma de proteção da saúde é infração sanitária (Lei 6.437/1977, art. 10, XXIX). As penas vão de advertência a interdição parcial ou total do estabelecimento, cancelamento do alvará e multa: leve de R$ 2 mil a R$ 75 mil, grave de R$ 75 mil a R$ 200 mil e gravíssima de R$ 200 mil a R$ 1,5 milhão, em dobro na reincidência. Veja multa e interdição da Vigilância Sanitária.
3. Outorga em risco
No RS, a outorga com consumo humano costuma exigir, em 120 dias, a autorização da Secretaria da Saúde, que não sai sem água controlada. Perguntamos ao próprio DRHS em setembro de 2026: condicionante não cumprida suspende a outorga, que perde a validade e exige novo cadastro no SIOUT. Se nada for feito, o poço fica irregular, com multa de 250 a 2.500 UPF-RS, e 500 UPF-RS (mais de R$ 14 mil em 2026) para poço não regularizado no prazo (Decreto Estadual 55.374/2020). O roteiro do Ministério Público do RS prevê ainda lacre e tamponamento. Nos outros estados, cada um tem sua tabela. Veja a condicionante de 120 dias da Secretaria da Saúde.
Como a PAAS resolve: PAAS Sentinela
No PAAS Sentinela, a PAAS cuida da água do seu poço de ponta a ponta: investiga a causa do positivo, faz a limpeza e a desinfecção do poço e do reservatório, ajusta a cloração, faz a coleta e as análises e assume responsável técnico, plano de amostragem, autorização na Saúde e relatórios à Vigilância. O HIDROPAAS, sistema de monitoramento criado pela PAAS, mede automaticamente cloro residual, turbidez e pH, entre outros parâmetros exigidos pela Portaria 888, e guarda o histórico que comprova o controle. Ele não detecta bactérias: quem confirma coliformes e E. coli é a análise de laboratório, que ele complementa e não substitui. Mas cloro que zera ou turbidez que sobe mostram que a proteção falhou, e o alerta chega na hora, antes da próxima análise.

Perguntas frequentes
Coliformes totais presentes na água de poço é grave?
É um alerta: sem E. coli, não indica contaminação fecal, mas mostra água desprotegida. Em solução coletiva, exige correção e recoleta (art. 27).
Deu E. coli na análise da água: posso ferver e beber?
Ferver é medida de emergência. Não resolve a causa: poço, caixa e rede seguem contaminados até a correção e a desinfecção.
Só colocar cloro na caixa d'água resolve?
Não. Se a contaminação entra pela tampa do poço ou vem de uma fossa, ela volta. Corrija a causa, desinfete e mantenha a cloração contínua.
Quando refazer a análise?
Depois da correção e da desinfecção, com o cloro de rotina funcionando. Em solução coletiva, em dias seguidos até sair satisfatório.
Poço de casa também precisa avisar a Vigilância?
O dever do art. 14 é de quem responde por solução coletiva. Na casa de uma família, o foco é proteger quem bebe: corrigir, desinfetar e analisar de novo.
Fontes
Portaria GM/MS nº 888/2021, arts. 5º, 14, 20, 27, 31, 32, 46, 48 e Anexos 1 e 15
Lei 6.437/1977, infrações sanitárias (art. 2º e art. 10, XXIX)
SIOUT RS, consulta pública de atos (Portarias DRHS de outorga)
ABNT NBR 7229, projeto, construção e operação de sistemas de tanques sépticos
Decreto Estadual RS nº 55.374/2020 (arts. 109, 110 e 113)
Ministério Público do RS, roteiro de atuação sobre poços irregulares (Termo de Cooperação SEMA/DRHS, CORSAN e MPRS nº 07/2023)
Sobre o autor

Chert Bobsin é geólogo formado pela UNISINOS, com registro no CREA-RS nº 204.398. É cofundador e CEO da PAAS Poços Artesianos e Água Subterrânea e criador do HIDROPAAS, o sistema de monitoramento de poços da PAAS.
Trabalha com perfuração de poços desde os 15 anos. A PAAS atua desde 1985, com geólogo responsável em cada projeto, e conduz perfuração, outorga e licenciamento de poços em todo o Brasil. Conheça a trajetória · LinkedIn.
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