Estudo PAAS: o que a Vigilância encontrou nos poços coletivos do RS em 2025

Em 2025, a Vigilância em Saúde coletou 24.911 amostras de água em 8.174 poços e fontes coletivas de 440 municípios do Rio Grande do Sul. Em 12,3% das amostras analisadas (3.031 de 24.625) havia E. coli, a bactéria que indica contaminação fecal, e 2.139 soluções coletivas tiveram E. coli em pelo menos uma coleta. Em 23% das medições de cloro, o residual estava abaixo do mínimo de 0,2 mg/L.
Esses números não saíram de pesquisa de opinião. Eles estão no SISAGUA, o sistema do Ministério da Saúde, e qualquer pessoa pode consultar. Quem fornece água de poço a moradores, funcionários ou clientes precisa saber disso: a Vigilância vai até o poço, o resultado fica registrado, e água fora do padrão pode virar notificação, interdição e multa.

O que é este estudo e de onde vêm os números
A PAAS baixou em 27 de setembro de 2026 os dados abertos do SISAGUA publicados pelo Ministério da Saúde em dadosabertos.saude.gov.br. Usamos três conjuntos:
Vigilância, parâmetros básicos, 2025: as amostras que as Secretarias de Saúde coletaram e analisaram;
População abastecida (cadastro): todas as formas de abastecimento cadastradas;
Controle mensal, 2026: os resultados que os responsáveis pelos poços lançaram no sistema.
Filtramos só o RS e só as soluções alternativas coletivas (SAC). Pela Portaria GM/MS 888/2021, SAC é o abastecimento coletivo sem rede de distribuição (art. 5º, VI): o poço do condomínio, da empresa, do hotel, da escola ou do sistema comunitário rural. O poço de uma única casa (solução individual) e as redes das companhias de saneamento ficaram de fora.
Cada linha do arquivo é o resultado de um parâmetro numa amostra. Contamos amostras únicas pelo número da amostra. Uma amostra entrou como "com E. coli" quando o resultado foi "presente". Para o cloro, contamos as amostras em que o cloro residual livre medido ficou abaixo de 0,2 mg/L.
Um cuidado importante: coleta da Vigilância é monitoramento, não multa. O dado mostra onde a água foi analisada e o que se encontrou. Ele não diz quantos poços foram autuados.
A Vigilância vai até o poço: 24.911 amostras em 2025

Em 2025, a Vigilância coletou 24.911 amostras em soluções coletivas do RS. Foram 8.174 soluções diferentes, em 440 municípios. Hoje há 10.478 soluções coletivas cadastradas no SISAGUA do RS, e 7.965 delas receberam pelo menos uma coleta em 2025: 3 de cada 4.
Quase todas as coletas foram de rotina. O motivo registrado foi:
Motivo da coleta | Amostras |
Rotina | 24.787 |
Surto | 61 |
Desastre | 44 |
Denúncia | 19 |
A conclusão prática é simples: ninguém precisa denunciar o seu poço para a Vigilância aparecer. Ela coleta por rotina, segue um plano de amostragem e lança o resultado no sistema (art. 13, IX, da Portaria 888).
O que a Vigilância encontrou na água dos poços coletivos

1 em cada 8 amostras com E. coli
Das 24.625 amostras em que a E. coli foi analisada, 3.031 tinham a bactéria presente: 12,3%, ou 1 em cada 8. A Portaria 888 exige ausência de E. coli em 100 mL. Não existe tolerância: uma amostra positiva já está fora do padrão.
E. coli vive no intestino de pessoas e animais. Quando aparece na água, indica contato com esgoto ou fezes: fossa próxima, poço mal vedado, tampa aberta, caixa d'água suja ou falta de cloro. O que fazer depois de um resultado positivo está em coliformes na análise da água do poço: o que fazer.
2.139 soluções coletivas com pelo menos uma amostra contaminada
Olhando por poço, e não por amostra, 2.139 soluções coletivas tiveram E. coli em pelo menos uma coleta da Vigilância em 2025. É cerca de 1 em cada 4 das 8.174 que foram amostradas.
23% das medições de cloro abaixo do mínimo
O art. 32 da Portaria 888 manda manter no mínimo 0,2 mg/L de cloro residual livre em todo o sistema, do reservatório ao ponto de consumo. Das 16.450 amostras com cloro residual livre medido, 3.802 estavam abaixo disso: 23%, quase 1 em cada 4. Poço sem cloro suficiente fica sem proteção contra a contaminação que entra depois da captação, na caixa ou na rede. Veja como medir o cloro residual livre todo dia.
Resultado por Coordenadoria Regional de Saúde (CRS)
O RS é dividido em Coordenadorias Regionais de Saúde. Na tabela abaixo, cada CRS aparece com a cidade de referência da região. Calculamos tudo a partir do mesmo arquivo de vigilância de 2025.
CRS (região) | Amostras | SACs coletadas | Amostras com E. coli | SACs com E. coli | Cloro abaixo de 0,2 mg/L |
1ª (Porto Alegre) | 1.764 | 474 | 112 (6,4%) | 79 | 22,3% |
2ª (Frederico Westphalen) | 1.495 | 500 | 333 (22,8%) | 221 | 23,5% |
3ª (Pelotas) | 400 | 167 | 87 (21,9%) | 58 | 23,3% |
4ª (Santa Maria) | 2.019 | 462 | 461 (23,0%) | 234 | 25,7% |
5ª (Caxias do Sul) | 1.992 | 548 | 131 (6,6%) | 106 | 36,8% |
6ª (Passo Fundo) | 3.278 | 1.326 | 439 (13,6%) | 338 | 25,5% |
7ª (Bagé) | 173 | 23 | 37 (21,4%) | 12 | 21,1% |
8ª (Cachoeira do Sul) | 239 | 96 | 25 (10,5%) | 19 | 12,0% |
9ª (Cruz Alta) | 707 | 302 | 58 (8,3%) | 54 | 15,9% |
10ª (Alegrete) | 350 | 170 | 63 (18,3%) | 46 | 48,5% |
11ª (Erechim) | 2.104 | 627 | 228 (11,0%) | 159 | 12,8% |
12ª (Santo Ângelo) | 1.956 | 820 | 356 (18,4%) | 275 | 27,3% |
13ª (Santa Cruz do Sul) | 835 | 170 | 42 (5,0%) | 29 | 30,2% |
14ª (Santa Rosa) | 1.826 | 720 | 153 (8,4%) | 123 | 16,7% |
15ª (Palmeira das Missões) | 1.086 | 391 | 128 (12,1%) | 94 | 29,6% |
16ª (Lajeado) | 2.538 | 618 | 161 (6,4%) | 120 | 17,1% |
17ª (Ijuí) | 1.092 | 543 | 149 (13,7%) | 132 | 32,2% |
18ª (Osório) | 1.057 | 217 | 68 (6,6%) | 40 | 21,9% |
RS | 24.911 | 8.174 | 3.031 (12,3%) | 2.139 | 23,1% |
Como ler: o percentual de E. coli é sobre as amostras em que o parâmetro foi analisado. O percentual de cloro é sobre as amostras com cloro residual livre medido. Em regiões com poucas medições de cloro (a 10ª CRS teve 97), o percentual oscila mais.
As três regiões com mais amostras contaminadas

Em número absoluto de amostras com E. coli, três CRS se destacam:
4ª CRS, região de Santa Maria: 461 amostras com E. coli, 23,0% das analisadas, a maior taxa do estado. Veja o resultado por município da região de Santa Maria.
6ª CRS, região de Passo Fundo: 439 amostras com E. coli (13,6%). É a região com mais soluções coletivas amostradas: 1.326. Veja a análise da região de Passo Fundo.
12ª CRS, região de Santo Ângelo (Missões): 356 amostras com E. coli (18,4%) e 275 soluções coletivas com pelo menos um resultado positivo. Veja a análise da região das Missões.
Em taxa, a 2ª CRS (22,8%), a 3ª (21,9%) e a 7ª (21,4%) também ficam acima de 1 em cada 5 amostras. As menores taxas foram da 13ª CRS (5,0%), da 1ª e da 16ª (6,4% cada).
Taxa alta não significa que todos os poços da região estejam ruins. Significa que, onde a Vigilância coletou, encontrou contaminação com mais frequência. E cada resultado positivo tem nome e número de amostra no sistema.
E o controle que o dono do poço deveria fazer?
A Vigilância faz a parte dela. O responsável pela solução coletiva tem outra obrigação: o controle, com análises próprias. No RS, a Portaria SES-RS 276/2021 manda o responsável lançar esses resultados no SISAGUA até o dia 25 de cada mês e atualizar cadastro e plano de amostragem até 30 de janeiro.
Cruzando os dados, das 10.478 soluções coletivas cadastradas em 2026, 5.432 não tinham nenhum controle mensal lançado de janeiro a agosto. Detalhamos isso em metade dos poços coletivos do RS não lançou o controle no SISAGUA em 2026, e os prazos estão em SISAGUA no RS: prazos da Portaria SES 276/2021.
O que acontece se a água do seu poço não for cuidada
A Vigilância comunica e exige correção
Quando identifica não conformidade, a Secretaria Municipal de Saúde deve comunicar imediatamente o responsável e pode determinar medidas corretivas (art. 13, X e XI, da Portaria 888). Com E. coli positiva, o responsável precisa corrigir e recoletar até o resultado ficar satisfatório (art. 27, § 1º).
Interdição e multa
A Portaria 888 remete às sanções da Lei 6.437/1977 (art. 46). Para quem transgride normas de proteção da saúde (art. 10, XXIX), a lei prevê advertência, interdição parcial ou total do estabelecimento, cancelamento do alvará e multa de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão, conforme a gravidade, em dobro na reincidência. Detalhes em multa e interdição da Vigilância Sanitária.
A outorga em risco
Quando a outorga do poço inclui consumo humano, a portaria do DRHS pode exigir o documento da Secretaria da Saúde em 120 dias. Perguntamos ao próprio DRHS em setembro de 2026: condicionante não cumprida suspende a outorga, que perde a validade e exige novo cadastro no SIOUT. Veja condicionante da outorga: autorização da Secretaria da Saúde em 120 dias.
Sem defesa se alguém adoecer
Se um morador, hóspede ou funcionário passar mal, o resultado da Vigilância já está no sistema. Sem o seu próprio controle, com laudos e registro de cloro, não há como mostrar que você cuidava da água. A Portaria 888 ainda aplica o Código de Defesa do Consumidor e as sanções civis e penais (art. 46).

Como a PAAS resolve: PAAS Sentinela
No PAAS Sentinela, a PAAS cuida da água do seu poço para que o resultado da Vigilância não seja surpresa: outorga e condicionantes no SIOUT, responsável técnico com ART ou AFT, plano de amostragem, autorização na Secretaria da Saúde, cloração (dosador, instalação e controle), limpeza e desinfecção do poço e do reservatório, coleta e análises mensais e semestrais, e lançamento no SISAGUA dentro dos prazos. Para o dia a dia, o HIDROPAAS, sistema de monitoramento criado pela PAAS, mede automaticamente cloro residual, turbidez e pH, entre outros parâmetros exigidos pela Portaria 888, e guarda o histórico que comprova o controle. Ele complementa as análises de laboratório, sem substituí-las. Entenda as regras em água de poço para consumo coletivo: o que a Vigilância exige.
Perguntas frequentes
Quantas amostras de poços coletivos a Vigilância coletou no RS em 2025?
Foram 24.911 amostras em 8.174 soluções alternativas coletivas de 440 municípios, segundo os dados abertos do SISAGUA. Quase todas (24.787) foram coletas de rotina.
Qual o percentual de amostras com E. coli nos poços coletivos do RS?
12,3%: 3.031 de 24.625 amostras analisadas para E. coli tinham a bactéria presente. A Portaria 888 exige ausência em 100 mL.
Qual região do RS teve mais amostras com E. coli?
A 4ª CRS, região de Santa Maria, com 461 amostras positivas (23,0% das analisadas). Em seguida vêm a 6ª CRS, de Passo Fundo (439), e a 12ª CRS, de Santo Ângelo (356).
Coleta da Vigilância significa que o poço foi multado?
Não. A coleta é monitoramento de rotina. Mas o resultado fica registrado, e água fora do padrão obriga o responsável a corrigir. Se ele não corrigir, podem vir as sanções da Lei 6.437/1977.
Como sei se a Vigilância coletou a água do meu poço?
O resultado é público no painel do SISAGUA. Mostramos o caminho em como consultar o resultado da Vigilância no painel do SISAGUA.
Posso usar esses dados em reportagem ou trabalho?
Sim, citando a fonte: "Estudo PAAS Poços Artesianos com dados abertos do SISAGUA/Ministério da Saúde (vigilância 2025, baixados em 27/09/2026)". Os números podem mudar se o Ministério atualizar os arquivos.
Fontes
Sobre o autor

Chert Bobsin é geólogo formado pela UNISINOS, com registro no CREA-RS nº 204.398. É cofundador e CEO da PAAS Poços Artesianos e Água Subterrânea e criador do HIDROPAAS, o sistema de monitoramento de poços da PAAS.
Trabalha com perfuração de poços desde os 15 anos. A PAAS atua desde 1985, com geólogo responsável em cada projeto, e conduz perfuração, outorga e licenciamento de poços em todo o Brasil. Conheça a trajetória · LinkedIn.
Quer saber se a água do seu poço passaria na coleta da Vigilância? Fale com a PAAS pelo WhatsApp (51) 99289-2188.




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